quinta-feira, 9 de Abril de 2009

Víbora cornuda


Víbora cornuda
Originally uploaded by LuPan59
Minha foto feita no Alentejo Litoral


A Víbora-cornuda é a mais comum das duas espécies de víbora da nossa fauna. Não atacando directamente o Homem, se for perturbada pode ser perigosa devido ao seu veneno. É uma espécie protegida que interessa conhecer por diversas razões.

IDENTIFICAÇÃO E CARACTERÍSTICAS

A Víbora-cornuda, Vipera latastei, pode medir até 70 cm de comprimento total. Possui uma cabeça bem definida, de contorno triangular. O extremo do focinho é muito proeminente, com 3 a 7 escamas apicais que formam um apêndice nasal típico da espécie (daí o nome de cornuda). A pupila é vertical com íris amarelada ou dourada e com pigmentos escuros.

Possui um corpo relativamente grosso e coberto dorsalmente por escamas fortemente carenadas (com uma saliência longitudinal). A cauda é curta e muito mais fina em relação ao resto do corpo. A parte superior é cinzenta ou acastanhada, por vezes com manchas amarelas, alaranjadas ou avermelhadas. Na região vertebral aparece um ziguezague mais escuro com o bordo mais contrastante. Na parte posterior da cabeça existem 2 manchas escuras que formam uma espécie de V invertido.

Os machos distinguem-se das fêmeas por possuírem uma cauda mais larga e maior número de escamas sub-caudais (entre a cloaca e a ponta da cauda). É frequente as fêmeas apresentarem cores menos contrastantes.

DISTRIBUIÇÃO E ABUNDÂNCIA

Encontra-se na maior parte da Península Ibérica, excepto no extremo noroeste, e também no norte de África.

Há cerca de 20 anos esta espécie era relativamente frequente em Portugal. No entanto, ultimamente tem sofrido um declínio acentuado.

ESTATUTO DE CONSERVAÇÃO

Esta espécie faz parte do Anexo II da Convenção de Berna. Em Portugal o seu estatuto é indeterminado( I ).

FACTORES DE AMEAÇA

A fragmentação das suas populações por alteração e destruição do habitat e a perseguição directa pelo Homem constituem as principais causas do declínio que se tem observado para esta espécie.

HABITAT

É uma espécie mediterrânica que necessita de locais com boa insolação. Deste modo, habita em zonas abertas nos limites dos bosques e matos ou em bosques relativamente abertos como os montados ou os pinhais. No sul habita também dunas costeiras e areais. Embora os substratos rochosos sejam preferidos por esta espécie, não são um factor que limite a sua presença.

ALIMENTAÇÃO

As víboras predam sobre uma grande variedade de presas, como lagartos, lagartixas e outros répteis, musaranhos, toupeiras, ratos, pequenas aves, pequenos anfíbios e invertebrados como escorpiões e centopeias.

INIMIGOS NATURAIS

Entre os seus inimigos naturais incluem-se algumas cobras, rapinas (falcões, tartaranhões e águias) e mamíferos como o saca-rabos, o javali e o ouriço.

REPRODUÇÃO

A cópula tem lugar entre finais de Março e Maio. Por vezes existe um segundo pico reprodutor em Setembro-Outubro. As víboras-cornudas são ovovivíparas. Os partos dão-se em Agosto nascendo entre 4 a 9 crias. De um modo geral, as fêmeas não se reproduzem todos os anos. Em condições naturais os indivíduos vivem cerca de 9 anos.

MOVIMENTOS

É uma espécie terrestre mas por vezes utiliza rios ou charcos de baixa profundidade. Ocasionalmente também trepa a arbustos.

ACTIVIDADE

Apresentam um período de hibernação cuja duração é muito variável, dependendo de factores como a altitude e a latitude. Assim, na metade norte do país hiberna desde o final de Outubro ou início de Novembro até Março ou Abril. Nas populações costeiras do sul de Portugal apresentam um período de inactividade muito curto ou nem sequer hibernam. Quando as condições ambientais são favoráveis (temperaturas elevadas) podem apresentar actividade crepuscular e mesmo nocturna.

CURIOSIDADES

A sua potencial perigosidade constitui por vezes (infelizmente) motivo suficiente para a promoção do seu extermínio. As cabeças de víbora cornuda são usadas em rituais de magia negra ou simplesmente como amuleto, tendo, este tipo de crenças, maior popularidade no norte do país. A confusão entre a víbora e outras cobras leva também a que se matem muitos indivíduos de espécies inofensivas.

LOCAIS FAVORÁVEIS DE OBSERVAÇÃO

A sua observação é difícil. Por vezes podem observar-se em estradas alcatroadas, sobre rochas ou noutras zonas abertas.

CUIDADOS A TER

As víboras-cornudas não atacam pessoas. Só o fazem quando se sentem ameaçadas. Como tal, não se deve tentar agarrar uma víbora ou qualquer tipo de cobra que não se saiba identificar. Não existe um antídoto específico para o veneno desta víbora.

A mordedura não é fatal a não ser que o vitimado seja idoso, uma criança ou se encontre debilitado fisicamente. Os sintomas mais frequentes provocados pelo veneno desta espécie são dores agudas e inchaço forte.

Em caso de mordedura a vítima deve ser mantida em repouso, pelo facto da actividade muscular aumentar a difusão do veneno, e com a extremidade afectada abaixo do nível do corpo, para evitar o retorno venoso. A ferida deve ser limpa e desinfectada com água e sabão e, se possível, com anti-séptico (tendo em atenção evitar o uso daqueles que alterem a coloração da pele, impedindo a detecção do aparecimento de futuras lesões). Se possível aplicar sacos com água fria ou toalhas molhadas sobre a extremidade afectada, mas não gelo. Caso haja necessidade, analgesiar o doente com paracetamol.

Após estas primeiras medidas de actuação imediata está indicado tentar identificar a vítima, contactar o 112 ou o centro de informação antiveneno (CIAV 808250143) e evacuar a vítima para o centro especializado mais próximo.

São contra-indicadas as incisões à volta da ferida, dado que aumentam o risco de penetração do veneno e infecção secundária, podendo ainda levar ao envenenamento do salvador se este possuir feridas na boca ou cáries dentárias. Também a colocação de torniquetes aumenta a sintomatologia local, pode causar isquemia da extremidade afectada e, quando removidos, permitem que o veneno entre na circulação sanguínea em elevada quantidade.

BIBLIOGRAFIA

Arez, A. P., G. D. Laing, V. do Rosário e R. D. Theakston. (1993). Preliminary studies on the characterization of venom from Vipera latastei latastei (Boscá, 1878)(Reptilia: Viperidae) collected in NW Portugal. Portugaliae Zoologica 2(4):37-42.

Arnold, E. N. e Burton. (1987). Guia de campo de los reptiles y anfibios de Espanha y de Europa. OMEGA, Barcelona.

Barbadillo, L. J. (1987). La guia de INCAFO de los anfibios y reptiles de la Peninsula Iberica, Islas Baleares y Canarias, Madrid: INCAFO.

Rosa, H. D. e E. G. Crespo. (1998). La conservación de los anfibios y reptiles en Portugal. Páginas 517 a 529 em Distribución y biogeografia de los anfibios y reptiles en España y Portugal, edited by Pleguezuelos, J.M.Granada:Monográfica Tierras del Sur, Univ. de Granada, Asociación Herpetológica Española.

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